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PRINCIPAL CAMPO MISSIONÁRIO DO SÉCULO XXI: AS CIDADES

O CONTEXTO DA MISSÃO URBANA – ONDE?

"As cidades são o principal campo missionário do século XXI".

Charles Van EngenCom essa frase o Dr. Charles Van Engen[1], iniciou sua série de preleções sobre missão urbana[2], em março de 2002, na cidade de Londrina (PR). Sua afirmação é uma verdade latente e preocupante por parte dos missiólogos espalhados pelo mundo inteiro. A preocupação dos acadêmicos é proporcional ao crescimento dos centros urbanos. O grande desafio hoje é levantar os olhos e ver a cidade como um grande campo branco pronto para a ceifa (Jo 4:35).

A urbanização é um fenômeno mundial. Cerca de metade da população mundial, que já atingiu a cifra de seis bilhões e meio de pessoas, mora em cidades. Na década de 60, a população urbana representava 34% da população do planeta. Esse número saltou para 44% em 1992, e existe uma estimativa de que 61,01 % da população mundial esteja vivendo em cidades até 2025.

No Brasil, o assunto não é diferente, muito embora, o crescimento aqui foi mais acelerado que outros países. O Brasil deixou de ser um país essencialmente rural no fim da década de 60, quando a população urbana chegou a 55,92%. A mecanização das atividades rurais e a atração exercida pelas cidades como lugares que oferecem melhores condições de vida são dois dos principais fatores do êxodo rural.

Atualmente, o país conta com 81,23% de seus habitantes morando em áreas urbanas (IBGE - censo 2000). Houve um acréscimo de 26,8 milhões de habitantes urbanos desde o último censo de 1991, devido ao crescimento vegetativo nas áreas urbanas, à migração com destina às cidades e à incorporação pelo IGBE de áreas, que em censos anteriores, eram consideradas rurais.

Esse fenômeno de “abandono” do campo e de migração para centros urbanos, não é um fato isolado do contexto brasileiro, mas de toda América Latina e parte mais oriental da Ásia. Já a África e Ásia (mais ocidental) apresentam um crescimento urbano acelerado, mas proporcionalmente diferente da América Latina, porque sua fase de industrialização cresceu principalmente nas últimas 3 décadas, e o deslocamento da população rural para esses pólos, deu-se principalmente nos últimos 20 anos. Hoje a população urbana do continente africano é de 37, 5% da população total, mas em crescente expansão.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), até 2015 4 bilhões de pessoas viverão em cidade. O número de cidades com mais de 10 milhões de habitantes (mega-cidades) será de 26 até o ano supracitado. Para comparar, em 1950, existia apenas uma cidade com esse número de habitantes em todo planeta, Nova York.

As cidades, principalmente nesses “dois terços” do mundo, não crescem apenas em população, mas também em problemas sociais, econômicos e políticos. Pobreza, violência, fome, doenças, favelas,..., os problemas são imensos. Segundo Viv Grigg [3], parte considerável da população das maiores cidades dos “dois terços” vivem em favelas. É notório que a má distribuição de renda,

“expulsa a população rural, que migra para as cidades. Também contribuem para esse deslocamento os baixos investimentos dos governos na agricultura e a ausência de políticas agrárias. O crescimento natural da população responde por 60% do incremento urbano. O acelerado aumento da população urbana deixa as cidades mais suscetíveis a crises periódicas ou permanentes, em razão da pobreza, da degradação ambiental, da qualidade dos serviços urbanos e das precárias condições de infra-estrutura. De acordo com a ONU, 250 milhões de pessoas não recebem água tratada, 400 milhões não contam com esgoto e 500 milhões estão sem moradia.” [4]

Da população mundial mais 50% vivem em cidades, e em 2030, serão 60% da população. Outro grande problema é a formação de megacidades. Essas são áreas com uma população igual ou superior a dez milhões de habitantes. De acordo com a ONU, estima-se que no ano 2015 haverá, ao redor do globo, 28 cidades com mais de 10 milhões de habitantes[5], e Tóquio, Mumbai, Jacarta, Karachi, Lagos e São Paulo terão mais de 20 milhões de habitantes. Outro fator que devemos notar é que 14 das 21 maiores metrópoles do mundo se localizam em países subdesenvolvidos[6].

Num relatório do BIRD (Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento - Banco Mundial) divulgado em 15 de setembro de 1999, para absorver os 2,4 bilhões de novos residentes urbanos, nos próximos 30 anos, as cidades terão que fazer maiores investimentos em moradia, água, saneamento, transporte, energia e telecomunicações. [7]

Portanto, além de acumular pessoas, as cidades acumulam problemas. Os problemas são diversos: estruturais, econômicos, sociais, políticos. Para muitos, vida urbana passou a ser sinônimo de desemprego, pobreza, favelas, congestionamento, poluição.

Outra categoria nos estudos urbanos é o da cidade global. Estudos feitos recentemente mostram que hoje existem no mundo cinqüenta e cinco cidades-globais. Para sabermos se uma cidade é global, leva-se em conta o número de escritórios das principais empresas (em contabilidade, consultoria, publicidade e banco e consultorias) a sua rede financeira/bancária, de telecomunicações etc. As cidades globais são vetores importantes da globalização. Elas são sede de poder e por meio delas que a economia global é administrada, coordenada e planejada. Elas formam uma rede onde transitam os trilhões que alimentam os mercados financeiros internacionais. Elas formam também uma teia que dissemina serviços especializados para a indústria e para o comércio, concentram as estruturas de comando das 37 mil empresas transnacionais atualmente existentes[8]. Algumas cidades são, simultaneamente, cidades-globais (concentram poder) e megacidades (população superior a 10 milhões de pessoas). Nova York e São Paulo estão nessa categoria.

Uma tentativa de definir e categorizar cidades globais foi feita pelo Globalization and World Cities Study Group & Network (GaWC), baseado primariamente na Universidade de Loughborough, no Reino Unido. As cidades consideradas globais foram categorizadas no com base em sua provisão de "serviços avançados de produção", tais como finanças, firmas de advocacia e publicidade. A GaWC categorizou estas cidades globais em três diferentes níveis, estes variando de acordo com a importância relativa da cidade em questão. Cada nível contém dois ou três subníveis. A pesquisa também categorizou outras cidades em um quarto nível, que possuem potencial em se tornarem cidades globais no futuro. As cidades mais influentes do mundo foram categorizadas em três diferentes classes: Alfa , Beta e Gama. Estas cidades estão divididas em subníveis dentro de suas classes, baseadas no número de pontos dado a estas cidades pela pesquisa da GaWC.

 

São Paulo é considerada uma Cidade Global Alfa - ; e o Rio de Janeiro, Cidade Global Beta -.

Concluindo, a urbanização, portanto é um fenômeno que acontece nos quatro cantos do globo, com mais intensidade nos países dos Dois-Terços do mundo.

 

A Cidade e a Cultura

Contudo, a cidade não é apenas população e problemas sociais, mas uma concentração cultural. Olhando para isso, é possível entender que a cidade deixou de ser um conceito geográfico e passou a ser um conceito sociológico.

Por um lado, as pessoas que migram de diferentes regiões procuram se concentrar, formando “guetos culturais”. São formados grupos que tentam manter vivas as tradições da terra natal, como os Centros de Tradição Gaúcha, espalhados por todo país. Isso é uma maneira de fortalecer os laços culturais.

Contudo, as influências externas tendem a transformar a cultura natal em algo mesclado com outras culturas. Em muitos momentos, a cultura da terra natal não representa tanto e os principais valores culturais aprendidos são misturados com outros em diversas situações. Acontece uma fusão de elementos culturais diferentes, ou até mesmo antagônicos, em um só elemento, continuando perceptíveis alguns sinais originários. Diante disso são formados grupos que compartilham de interesses e gostos análogos.

Por outro lado, existe uma cultura que é própria da urbanização, levando os habitantes da cidade, tanto os de classe média alta como os de classe baixa, a pensarem de modo individualista. De acordo com texto organizado por Carlos Fortuna encontramos que são quatro os traços principais que levam à consumação desse pensamento individualista:

1) o intelectualismo, pelo qual, e aos contrário do que acontece em pequenas localidade, o sujeito se vê forçado a conter as suas emoções e a agir de modo racional; 2) a reserva mental, ou a criação de distâncias nos contatos quotidianos, como mecanismo de auto-proteção da individualidade; 3) o espírito calculista e pragmático como garantia de sobrevivência numa cultura quantitativista e 4) a atitude blasé, um traço psíquico que remete para a banalização das diferenças e a (auto) desvalorização pessoal [9] (grifo do autor)

Concluindo, a cidade é um amontoado de culturas diversas misturadas com culturas locais, preservando valores originários. É também um lugar onde impera o individualismo, onde as pessoas tendem a competir para conquistar um melhor lugar dentro da sociedade vigente.

A Cidade e a igreja

E a igreja, onde fica na cidade? Para entender como a igreja se relaciona com a cidade precisamos recorrer à história.

A igreja cristã teve um papel fundamental no curso da história humana. Quando Jesus e seus seguidores fundaram a igreja, ela expandiu-se nas cidades, nos vilarejos e nas áreas rurais de todo o mundo, principalmente no Oriente próximo e Ocidente. No Período Apostólico (séc. I, II, e III), a igreja tinha uma relação de misericórdia para com a cidade e seus habitantes. Era um período da igreja escondida. Era clandestina, vivendo em catacumbas e reunindo-se nas casas dos irmãos. Depois, no Período Imperial (séc IV ao XVI), a igreja sai da clandestinidade para o reconhecimento. Sai da obscuridade e aparece no palco do mundo. O grande iniciador de tudo isso foi o imperador Constantino, o “grande”, que se “converteu” ao Cristianismo e tornou-a religião oficial de todo império romano. Solidifica-se nas cidades, construindo, principalmente na Europa, com grandes catedrais e universidades. Tudo agora dependia da igreja, e óbvio de seus líderes. Reis e rainhas eram coroados pelo Papa, sujeitando, de certa forma, todo o poder do estado à Roma. Neste período o mundo viveu a “era das trevas”.

Com a Reforma, a igreja passou a olhar mais para os moradores da cidade. Uma das primeiras atitudes dos reformadores foi de traduzir a Bíblia na linguagem do povo. Neste período ainda a igreja ditava as regras, fosse católica ou protestante. Com as duas grandes revoluções da história, a Francesa e a industrial, a igreja começou a perder seu poder. Até este período, a igreja se encontrava sempre na vanguarda da história, e agora passa à retaguarda. Isso é de suma importância para entendermos o papel da igreja nas cidades hoje.

Nesta última fase, desde a Revolução Industrial até hoje, a igreja passa a ter uma atitude reacionária com a cidade. Antes, acostumada a estar na frente de decisões políticas, econômicas e sociais, se vê agora sem rumo e precisa redefinir seu papel. A partir disso então, a igreja passa a viver sempre na retaguarda das cidades, sempre reagindo às necessidades da população.

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[1] Importante missiológo contemporâneo, Rev. Van Engen (Ph.D.) desenvolve seu trabalho na School of Word Mission, do Fuller Theological Seminary em Pasadena (CA), EEUU.

[2] Anotações pessoais da 1ª Conferência de Missão Urbana, ocorrida nas dependências da FTSA (Londrina – PR), de 22/03 a 24/03/2002.

[3] GRIGG, Viv.  A Nova Fronteira – Os Pobres Urbanos não-alcançados.   IN: Boletim da SETE. v. V, n.10 Jul/Set 1988.

[4] Mega Cidades. IN: Almanaque Abril 2002. São Paulo: Abril, 2002.

[5] Roger S. GREENWAY. O desafio da urbanização no mundo. IN: Go and make disciples. P&R Publishing, 1999 (tradução por Ricardo Agreste).

[6] Maria da Glória GOHN. O futuro das cidades. http://www.lite.fae.unicamp.br/revista/art03.htm

[7] Mônica YANAKIEW. Pobreza mundial estará concentrada em centros urbanos. São Paulo: O Estado de São Paulo, 16/09/1999. www.estado.estadao.com.br/edicao/pano/99/09/15/ger712.html

[8] Maria da Glória GOHN. Op.Cit. p.2

[9] Carlos FORTUNA (org.). Cidade, cultura e globalização: estudos de sociologia (07/06/2002).  http://www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/outras/199701/introducao.html

 

 

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